Afeminado é o novo preto

29 abr

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Eu já vi – e não foi uma nem duas vezes – o seguinte acontecer: numa roda de amigos de maioria branca, o único preto vira e diz:

– Eu, que sou negro…

E alguém da roda logo corrige:

– Imagina, você nem é tão negro assim…

Na teoria, ser descolado é curtir as diferenças. Mas, na prática, num ato falho, num agir sem pensar, muita gente que não faz parte de uma minoria mostra que a considera um problema. “Não diga isso, você não é tão preto assim”, como se ser negro fosse algo que devesse ser negado, como se quanto menos preto você puder ser, mais OK a sua vida também será. E às vezes estão lá o cabelo crespo, o nariz largo, a pele escura… e mesmo assim haverá alguém para te “consolar” tentando te convencer de que não, você não é preto. Aliás, “tem gente muito mais preta que você”.

Hoje em dia eu percebo algo parecido com os gays em geral. Muito se fala do preconceito interno, do “não curto afeminados” na bio do Grindr. Mas, sinceramente? Foda-se. Não vejo um problema tão grande no fato das pessoas descreverem suas preferências sexuais claramente. Ah, você não curte afeminados? Ok, vai caçar seu urso. Fica à vontade, cara.

O maior problema pra mim continua vindo de fora, vindo da maioria descolada. Várias vezes já escutei (de pessoas – héteros – que eu gosto) o seguinte:

– Não é porque um cara é gay que precisa agir como uma mulher, ser afeminado.

E eu digo:

– Ai, foda-se eu sou afeminado mesmo.

E a resposta sempre é muito parecida com aquela pros pretos:

– Não, imagina! Você nem é afeminado! Tem gente que desmunheca MUITO mais que você.

Ok, sociedade. Tem gente que é mais afeminada que eu. Tem gente que é menos. A questão é que nenhum “nível” de afeminação deveria ser um problema pra ninguém. De onde um hétero tirou a ideia de que ele pode dizer qual é o grau de desmunhecagem das bichas ao redor? Quem disse que, quanto mais um gay lembrar uma mulher, menos aceitável ele é? E quem disse que você é descolado por ter amigos gays mesmo pensando desse jeito?

Quem disse? Eu digo:

A sociedade é machista. “Oh, que novidade”. Ser homem é um privilégio (assim como ser branco). E quando você nasce homem e age como uma mulher, é como se você estivesse negando essa honra que a natureza te deu de ser o macho, de ser o tomador de decisões, de ser quem controla a sociedade, de ser respeitado, admirado, invejado. É como se toda testosterona do mundo fosse como água, e você estivesse desperdiçando a sua – o que, aparentemente, se torna um problema coletivo. A Cantareira da virilidade tá no volume morto, então faça bom uso da testosterona que você tem.

Eu não sou negro, mas tenho completa consciência do que essa parcela da sociedade sofre.  Se for uma mulher preta então, fudeu. E se for uma bicha pintosa negra, meu deus, por onde os homens brancos héteros de “mente aberta” começarão a racionalizar? “Você não é tão negro e nem tão afeminado e nem exatamente tão você, você é uma outra coisa que você não percebe, mas te garanto que é melhor ser essa coisa que eu to dizendo que você é, do que ser isso que você acha que é, pode acreditar!”

Se você é gay e quer ser macho, vá em frente. Se quer ser bicha, vá também. A verdade, meu caro amigo da minoria, é que não existe resistência maior do que ser exatamente o que você quer ser. E não existe nada mais rebelde e revolucionário do que ser uma drag queen, um transexual, uma lésbica afro-descendente ou um negão que, para espanto de todos, é melhor com cálculos do que com futebol. Não deixe que os outros digam o que vão aceitar de você. Aceite você mesmo. Quem quiser, que te curta assim. E quem não quiser, sashay away.

“Ser afeminado é o novo preto” por vários motivos. Primeiro, pela semelhança dos discursos. Segundo, porque preto é essencial, assim como cada pintosa que desfila por este mundo.

 

Poema de Amor Didático

5 nov

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O amor é uma comédia do avesso
assistida por dois em uma só poltrona.
É a Idade Média de um sintoma travesso
que não se cura com Dipirona.

O amor é um peixe de aquário
em frente ao fundo do mar.
É um feixe de luz num antiquário
onde só uma peça você quer achar.

O amor é o manjericão de um prato
feito tanto em Parma quanto em Milão.
Repetirão a receita em dois atos
até que vire parmesão.

O amor é tipo uma reforma política sem referendo,
um bug do milênio a cada segundo.
É a vontade analítica que ando tendo
de numa só pessoa resumir o mundo.

O amor é escrever sem vírgulas um romance
com uma falta e um excesso de nomes,
é dar ao sujeito a chance
de dividir os mesmos pronomes.

O amor é monarquia do prazer
é um tiro de meta no escuro,
aquela alegria de querer
a cumplicidade com pau duro.

O amor é uma atrocidade
que a duas almas faz sorrir.
E também a estranha vontade
de talvez te engolir.

E, se nesse gracejo,
os amantes planejam o próximo ano,
tudo o que eu mesmo planejo
é apenas dizer que te amo.

Carta aberta a Eduardo Jorge

9 out

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Querido Dudu,

permita-me te chamar da maneira com que falava sobre você pros meus amigos e pra mim mesmo em longos monólogos sozinho em casa.

Dudu, talvez sem que sequer imagine, você me ensinou muitas coisas na sua campanha eleitoral. Uma delas foi o termo “cultura de paz”, que eu adorei e logo aderi. Eu acredito de verdade que podemos viver num mundo com menos violência, apesar dos conflitos inevitáveis. Junto a isso, você pregou e lutou por direitos humanos com uma racionalidade ímpar: a legalização do aborto como medida para evitar as mortes na clandestinidade; a regulação das drogas – a princípio, a maconha – para que o Estado pudesse ter uma conversa adulta sobre o consumo delas com os usuários (cheguei a sonhar com o discurso dos três itens: 1- não use, 2- se usar, use com moderação, 3- se estiver dependente me procure porque eu quero te ajudar); mas o que eu mais gostei foi da forma com que defendeu o casamento igualitário, “se dois rapazes que não me prejudicam em nada querem se casar, por que eu haveria de ser contra?”. Esse sempre foi meu maior argumento. É um argumento racional e absolutamente pacífico. Comecei a te admirar por causa dele e fui prestando cada vez mais atenção em você. Sua calma e firmeza são incríveis, especialmente por virem juntas. Talvez tenha sido por conta delas que eu abri meus olhos para as questões ambientais, as quais, confesso, nunca foram prioridade pra mim. E percebi que um mundo mais justo e pacífico começa com o respeito ao planeta. Jamais serei vegetariano, mas estou cada vez mais me policiando para não desperdiçar papel e não deixar a torneira aberta ao escovar meus dentes. Fora a história da simplicidade voluntária, à qual já aderia sem nem saber: veja só você, sou um classe média que não tem microondas, máquina de lavar e nem carro, por pura opção. Pretendo inclusive comprar uma bicicleta como auto-presente de natal.

Também admirei seu discurso de que você e o seu partido estariam dispostos a conversar tanto com os socialistas quanto com os capitalistas, em todos os seus níveis. Sei que não se pode sair do espectro direita-esquerda, mas a disposição para se fazer presente em qualquer governo é nobre, sim. Eu mesmo acredito no capitalismo e nos programas sociais ao mesmo tempo. Aliás, pra mim não são necessariamente opostos: podem ser complementares. Acredito que o Estado tem o dever de dar o básico a toda a população: água, comida, moradia, segurança, educação, saúde, mobilidade, saneamento, direitos trabalhistas, liberdade e igualdade de oportunidades. Fico feliz quando sei que o dinheiro dos meus impostos está sendo usado pra melhorar a vida de pessoas que precisam mais que eu. Acho que, a partir daí, criamos um terreno pacífico e fértil para o livre comércio, a liberdade de escolha, de expressão, de imprensa. Valores que boa parte da esquerda e da direita defendem com diferentes pontos de vista. E acredito que você concorde comigo sendo, portanto, um transeunte nessa divisão unidimensional (mas multi-nivelada) de esquerda/direita.

Enfim, Dudu. Tudo isso para dizer que votei em você com muita razão, coração e orgulho. E que permaneço te achando a melhor pessoa para governar este país (quem sabe em 2018?). Dito isso, Dudu, passo a chamá-lo novamente de Eduardo Jorge.

Hoje, Eduardo Jorge, tive uma notícia triste: você optou por apoiar Aécio Neves no segundo turno. Foi como ver um amor de adolescência beijando outro cara na festa do colégio: nada tinha sido acordado e, mesmo assim, soa como traição, sabe? Veja bem: também não acho que a presidenta Dilma seja uma boa opção, mas você como sanitarista deve saber que uma merda fede mais que outra, certo? Estamos sem água em São Paulo por responsabilidade do PSDB. O metrô não se expande por responsabilidade do PSDB. A polícia militar usou gás lacrimogêneo e bala de borracha pra expulsar os sem-teto que ocupavam aquele prédio abandonado do centro, por responsabilidade do PSDB. Num vídeo da sua campanha, você e seu neto seguravam plaquinhas que pregavam contra o rodeio. Bom, se você tiver a oportunidade de voltar no tempo, ir até a festa do peão de Barretos e perguntar em quem todas aquelas pessoas vão votar, elas dirão PSDB. E isso me lembra de todas as pessoas que dividem o palanque ideológico com você a partir de agora: Pastor Everaldo, com todo seu chorume desumano, é um deles. Luciano Huck, com sua exploração da tragédia alheia, é outro. Sem falar do indesejável Silas Malafaia que você, com muita razão, repudiou em um de seus vídeos.

É triste, Eduardo Jorge, é muito triste pra mim ver você endossando o mesmo coro dessa gente. Logo você, que não tinha “nada a ver com isso”. Mas tenho que te dizer uma coisa: jamais duvidarei da sua capacidade de dialogar com quem quer que seja eleito, e espero que isso ao menos te ajude a permanecer na memória dos outros eleitores. Li seus motivos no site do PV e absorvi as justificativas por tamanha disparidade. Essa é a primeira vez – e provavelmente a mais importante – que eu discordo de você. Mas se é essa sua decisão, eu respeito. Em nome da democracia. Não serei eu quem irá te tacar pedras. Porque um dia desses um cara me ensinou que podemos viver num mundo sem violência, apesar dos conflitos inevitáveis.

Um beijo do seu eleitor que está desde já torcendo para que
1- você mude de ideia.
2- se não mudar, vá com moderação.
3- e se estiver dependente nos procure, porque queremos te ajudar.

Nos vemos em 2018.

 

Um email de Deus

14 ago

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From: deus@eden.com
To: humanidade@gmail.com

 

Queridos humanos, minhas preciosas criaturas,

Nunca fui muito fã desse negócio de escrita que vocês inventaram (sem o meu consentimento), mas é por meio desta que venho dar o meu recado.

Em primeiro lugar, que história é essa de sair matando os irmãozinhos em meu nome? Quem deu autorização pra isso? Eu não mandei matar ninguém, meus amores. Até porque, se quisesse matar alguém, eu seria capaz de fazer isso de forma muito mais prática – e ainda assim apoteótica – que vocês. O dilúvio está na Bíblia não é à toa.

Aliás, falando em Bíblia, quem foi que disse que eu escrevi aquilo? Eu não escrevi nada, não. Muito menos mandei minha pomba escrever. Quem escreveu foi um monte de gente bêbada (geralmente de vinho) que não imaginava a merda que poderia dar. Eu, como já disse, não curto esse negócio de escrita, só o faço quando exagero na maconha. E, por falar em maconha… SEUS PUTOS, QUEM INVENTOU DE PROIBIR? Eu mesmo criei a erva, coloquei ela lá na natureza e, é com muito orgulho no coração e uma bandeira da Jamaica no altar que digo: também faço uso. E É PRA VOCÊS USAREM TAMBÉM, caralho. Se eu não quisesse que vocês usassem, eu não teria criado, oras! Aliás, pode parar de espalhar por aí que eu não quero que nego beba, fume, trepe… Eu inventei essas coisas justamente para vocês aproveitarem enquanto estão por aí. Vocês, quando têm um cachorro, não compram uma bolinha de tênis pra jogar pra ele pegar? Não é maneiro ver o bichinho se divertindo? ENTÃO, PORRA! Eu quero que vocês se divirtam. Ficar o tempo todo dentro da igreja rezando equivale, em escala humana, a um peixe beta que só dorme. Então curtam essa caceta que vocês chamam de vida do jeito que quiserem! Só lembrem de deixar o irmãozinho ao lado curtir também. Eu fiz criaturas diferentes pra que cada uma aproveite a vida do seu jeito, desde que não impeça a outra de aproveitar também. Talvez o meu maior erro foi esquecer de colocar o gene que faria vocês entenderem isso que estou falando, porque eu achava que seria uma coisa simples. MAS NÃO: fui confiar em vocês e, ta aí, um bando de idiota, metade matando gente e metade cagando regra. Francamente!

Jesus está aqui do meu lado e pediu para falar sobre o negócio de gays e negros. Bom, vou começar pelos negros: QUE PORRA É ISSO DE ~RACISMO~? Como assim tem gente de uma cor achando que é melhor que o irmãozinho de outra cor? Vocês queriam que fosse todo mundo da mesma cor, com a mesma cara, o mesmo tamanho, o mesmo formato? Repito: fiz criaturas diferentes pra vocês aproveitarem isso. Melhor parar com essa merda se não transformo todo mundo em empada. Aliás, parem  também com essa babaquice de ~afrodescendente~. Não tem problema chamar o irmãozinho de preto. O que não pode é se achar melhor que o irmãozinho SÓ PORQUE ele é preto. Ou branco. Ou listrado.

Ah, e quanto aos gays, eu tenho uma pergunta, que inclusive pode ser respondida por qualquer representante da humanidade: você quer dar o seu cu? Não? ENTÃO NÃO DÊ, PORRA! Mas se o irmãozinho quiser dar o dele, DEIXA ELE, ORAS! Eu dei um cu pra cada criatura justamente para que cada uma decida o que fazer com ele. E isso vale também para o pinto, a pepeca, a boca, os olhos, as tetas, o pâncreas… Ah, vocês ainda não descobriram os prazeres do sexo pancreático, né? Bom, desculpa o spoiler.

Devo dizer também que fico muito satisfeito quando vocês creem em mim (e quem não crê, tudo bem, foda-se), especialmente quando vocês acreditam que depois da vida aí na Terra haverá outra muito melhor e potencialmente mais prazerosa. Então, digam-me, meus filhos: POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM A PRÓPRIA MORTE? É certo que aqui do outro lado não haverá lasanha nem Tinder, mas aqui é maneiro, vocês sabem (pelo menos dizem que sabem). Então, aproveitem o que tem aí, mas não fiquem com esse mimimi desesperado de não querer morrer ou não querer que ninguém morra. Eu vou saber a hora de levar cada um de vocês e, sinto muito, a hora vai chegar pra todo mundo, por um motivo bem simples: O MUNDO NÃO É INFINITO! Meus amores, vocês já tiveram a experiência de administrar uma superlotação? Vocês fazem ideia do que é distribuir 7 bilhões de bípedes racionais em uma superfície limitada? Ah, agora vocês acham que porque jogaram The Sims tem as manhas necessárias para administrar a humanidade? Dá um klapaucius na sua conta bancária então pra ver se funciona.

Falando em dinheiro, e pra encerrar, deixo aqui meu último pedido: PAREM COM ESSA PUTARIA DE PAGAR DÍZIMO. Usem o dinheiro que vocês ganham aí enquanto estão… AÍ! Comprem uma torradeira, façam um passeio pela Polinésia (adoro a Polinésia) ou ajudem um irmãozinho que não tem o que comer. Mas gastem essa porra! Aqui nenhum dinheiro vale nada, e se vocês acreditam que EU preciso desses 10% do seu salário, francamente, terei que rever todo o planejamento da minha criação. Pensando bem, não me admira as mesmas pessoas que acham que eu preciso dessa grana também acreditarem que eu tenho UMA CASA na Terra. E pior: que essa casa fica NO BRÁS!

Francamente, humanos.
Francamente.

ass: O Todo Poderoso, DEUS.

 

 

Não existe amor no RJ

23 jul

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Era um voo de ponte aérea.

Sabe quando alguns comissários, apesar de vestidos como comissários, viajam nas poltronas como passageiros? Era esse o caso naquele voo em direção ao sempre amado Rio de Janeiro.

Um desses comissários, um desses que de longe parecem idênticos aos outros mas que, quando observado de perto, revela traços, cílios, sobrancelhas, olhares e tudo mais que o torna absolutamente único. Um desses sentou-se ao meu lado durante o voo.

Não dei a devida atenção no início, assisti a um episódio de Friends interrompido por comerciais, e perdi um pouco de tempo me questionando por que diabos colocam tantos comerciais numa viagem. Mas eis que o lanchinho chegou. Era um sanduíche, um café e uma pequena salada de frutas. Depois de comer, comecei meu ritual de hiperatividade: quebrar os talheres, amassar os guardanapos e as embalagens, colocar tudo dentro do copo e espremer isso tudo para colocar dentro do pote vazio de sobremesa, transformando todo o meu lixo numa pequena cápsula.

– Quer que eu guarde o seu  aqui até passarem pra jogar fora?

Era ele, o comissário. Pela primeira vez olhei para aquele nariz pontudo contrastando com os olhos redondos, que encaravam e se ofereciam gentilmente para segurar meu lixo. Por mais dois minutos de ausência paterna na infância eu teria interpretado aquilo como um pedido de casamento. “Sim, aceito!”, responderia como que num altar. Mas apenas agradeci e entreguei minha cápsula de lixo compacto. Qual não foi minha surpresa ao ver que ele tinha feito a mesmíssima coisa com o próprio lixo.

– Mania de compactação? – perguntei.

– É. Haha. Jajá ela passa pra pegar. – respondeu ele, muito mais doce do que o mamão papaya da salada de frutas.

Lá se vão 2 anos sem um namorado, 3 semanas sem sexo, sem falar da proximidade com o Rio que sempre exerce um poder esquisito sobre meu córtex pré-frontal. Isso tudo junto fez com que todas as minhas atenções se voltassem para o comissário que, apesar de tudo, era paulista. O sotaque denunciava.

Não trocamos mais nenhuma palavra até então, mas o silêncio é combustível para alguém que tem a minha imaginação.  Mais alguns minutos sem conversa e eu já estava olhando atônito para a poltrona da frente, suspirando e imaginando nosso início de relacionamento, a nossa primeira viagem juntos e até o meu ciúme por vê-lo cada hora numa cidade diferente com o álibi do trabalho.

Até que o comandante anunciou a descida, pediu para que as poltronas voltassem à posição vertical e para que as persianas fossem abertas. Foi a minha deixa, abri as persianas do diálogo que poderia ser o marco da nossa relação.

– Desculpa, posso te perguntar uma coisa?

– Claro!

– Por que as pessoas têm que abrir as persianas pra pousar? No que que isso influencia?

– É que em caso de emergência, se as persianas estiverem fechadas e você abrir para olhar pra fora pra ver onde está o problema, ou mesmo que seja para clarear o espaço interno, suas pupilas vão estar dilatadas e a claridade repentina vai impedir a sua visão total. Por isso a gente pede que as persianas fiquem abertas assim que anunciamos o pouso, daí o ambiente já estará claro o suficiente.

Confesso que esperava uma resposta do tipo “para que eu possa te enxergar melhor, seu lindo”, mas a realidade já foi encantadora dita sob aquele uniforme. E foi a partir daí que ele também subiu as persianas para a conversa, perguntou o que eu faria no Rio, eu disse que era bate-volta de trabalho, ele disse que pena né e peguntou se eu vou sempre pra lá, eu disse que sim, ele disse que amava ser comissário, que tentou outra carreira mas voltou porque é isso mesmo que quer, perguntou o que eu fazia, eu respondi que escrevia mas que também amava voar, ele disse que eu poderia ser comissário também, eu disse que apesar disso odiava os aeroportos, ele disse que também, que aeroporto é só dor de cabeça e que o melhor momento é quando o avião sai dele, eu disse que meu deus eu sinto exatamente a mesma coisa. Estava tudo engatado. Íamos decolar.

Até que a senhora do outro lado adorou a ideia de ter um comissário de bobeira conversando como se fosse amigo, e puxou conversa também. Ele respondia tudo meio entediado. Pode ser tendenciosidade minha ou até mesmo a pressurização da nave, mas na minha cabeça estava bem claro que ele queria mesmo era falar comigo. Só comigo.

Bom, o avião desceu, trocamos mais algumas palavras interrompidas pela senhora e sequer dissemos nossos nomes. A última pergunta fora dele: “e você não vai ter tempo nem de tomar um chope hoje depois das suas reuniões?”. Eu disse que provavelmente não, me distraí com aquele último olhar e quando dei por mim já estava seguindo o fluxo dos passageiros rumo ao desembarque. Ele ficou no avião e eu desci para trabalhar paulistanamente no Rio de Janeiro.

E ainda dizem que é em SP que não existe amor.

A confirmação da Copa do Mundo

5 jul

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Um moleque magrelo de 4 anos, cabelo de cuia, enfiando a mão numa lata de tinta amarela. “Tira essa mão daí, menino!”, disse a minha mãe, que ajudava a pintar a rua de casa, junto com todos os vizinhos, para a Copa do Mundo de 1994. Depois do pito, ela me deu o pincel para que eu pintasse, da minha maneira desengonçada de criança, alguns paralelepípedos. “Por que estamos pintando a rua, mãe?”, perguntei. “Para a Copa do Mundo!”, ela respondeu.

Eu achei aquele nome maravilhoso. Era o primeiro contato que eu tinha com algum evento “do mundo”. Senti a grandiosidade da coisa por aquela palavra e li, com a habilidade de um infante precocemente alfabetizado, as palavras RUMO-AO-TETRA, escritas disformes sobre os paralelepípedos. Minha mãe também me explicou o que era tetra, e a importância que aquilo tinha para o Brasil. Depois, só lembro de comemorar gol com a dancinha do Bebeto, achar que Romário era meu xará e ver Baggio errando o último pênalti. Todos gritavam muito em casa e eu pulava que nem uma mola. Junto com a minha primeira Copa do Mundo, eu conheci a emoção da vitória do Brasil.

Não deu outra, peguei minha camiseta do Zé Carioca que tinha a nossa bandeira junto com a dos EUA (sede daquela Copa), mostrei pra minha mãe como se fosse um uniforme e disse, cheio de mim: quero ser jogador de futebol!

Ela fez o possível, coitada. Me levou até a aulinha do Calvert, um treinador da cidade, e pediu a ele para que me colocasse na turma. Calvert disse que a turma mais nova tinha 10 anos (o que, pra mim, era idade de gente grande) e que eu teria que esperar. Minha mãe, vendo a decepção do seu filho do meio, conversou baixinho com ele e o convenceu a me deixar fazer uma aula apenas, como café-com-leite. Calvert consentiu e ela, sem noções mais aprofundadas de direitos humanos mas pensando em proteger sua cria da zombaria infantil, conversou comigo antes da partida e disse: “Você vai poder jogar com eles, mas eles são maiores que você. Muito maiores. Então, aconteça o que acontecer… não chore!”. Eu consenti com a cabeça e os olhos vidrados. Bola rolou. Dois, três, quatro minutos e eu ali, correndo pra lá e pra cá me sentindo o próprio Pelé, sem entender porque ninguém jogava a bola pra mim. Até que alguém jogou. Até que algum solidário imbecil com uma década de vida jogou. Só me lembro da bola no ar, vindo na minha direção. Na minha direção. Na minha direção. Na minha cara. Com toda a força, bem na minha cara. Eu lembro da dor e do tombo que eu tomei. Mas levantei, olhei pra minha mãe na arquibancada vazia, lembrei das palavras dela, e engoli o choro. Com os olhos cheios de lágrimas entaladas, chutei a bola para qualquer direção e saí à francesa da quadra, pensando que nunca mais em toda a minha vida eu ia querer jogar futebol.

Hoje, depois do jogo do Brasil contra a Colômbia, eu estava feliz da vida, orgulhoso da nossa Seleção, vestindo minha camisa amarela e comemorando num bar com mais três amigos. No meio das gargalhadas, uma amiga atendeu o telefone e interrompeu o papo com a bomba: “o Neymar está fora da Copa”. Minha visão embaçou. Esperei alguns segundos pra ter certeza de que ela não estava brincando e, quando a certeza veio, a minha noite acabou. Primeiro, porque pensei no que seria da seleção sem seu grande craque. Depois, porque pensei em como é triste você ter o sonho de ser campeão, a oportunidade única de realizá-lo em casa, e alguém tirar esse sonho de você.

Neymar é um que nasceu pra ganhar e lutou até o limite pra nos trazer a vitória. Logo, perder o Neymar é desesperador. Mas, no caminho amuado de volta pra casa, lembrei daquele moleque que queria jogar futebol. Daquele moleque que, num devaneio, decidiu fazer algo completamente distante do seu talento, daquele moleque que levou uma bolada na cara e engoliu o choro pra nunca mais jogar bola. Daquele moleque que passou por tudo isso apenas porque cresceu vendo o Brasil levantar uma taça. E cheguei à conclusão de que – me desculpem Alemães, Holandeses e Argentinos mas – nós nascemos pra isso! Ninguém levanta uma taça melhor que a Seleção Brasileira. Por mais que levemos bolada na caraou joelhada nas costas… nós somos um país de neymares.

Particularmente, continuo sem o menor talento para o futebol, mas uma enorme vocação para torcer e para ver o meu time sendo campeão. Aprendi isso ao longo dos últimos 20 anos. E ganhando ou não esta Copa aqui, com ou sem o craque Neymar, a Seleção sempre terá o meu apoio. Eu acredito nos 23 caras que estão lá, e no técnico que me trouxe a taça de 2002 quando ele era tão ou mais criticado do que é hoje.

Chegando da comemoração no bar que virou velório, encontrei um vizinho no elevador. Eu, com camisa da seleção e colar havaiano verde e amarelo e ele enrolado numa bandeira do Brasil. Depois de segundos de silêncio, ele abriu a boca para me dizer extasiado;

-TÁ TENDO COPA, CARA.

Levando embora assim o pedacinho de tristeza que faltava.

 

#ForçaNeymar

 

O cancelamento da Copa do Mundo

10 jun

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_Bom dia, meu nome é Joseane, com quem eu falo?
_Bom dia, Joseane, meu nome é Mário.
_Olá, Senhor Mário, em que posso ajudá-lo?
_Então, Joseane… Eu gostaria de cancelar a minha Copa.
_Desculpe, senhor, não entendi. Você pode estar repetindo, por favor?
_A Copa, querida. Eu quero cancelar.
_Mas como assim cancelar? O senhor não está satisfeito?
_Pô, Joseane, sabe que não? Quando eu vi a propaganda da Copa em 2007 eu fiquei super animado, achei que seria realmente vantajoso, mas tô há 7 anos pagando e nunca usei, nem vou usar.
_Mas o senhor conhece os benefícios do Pacote Estádio de Manaus e da mobilidade urbana ilitmitada?
_Olha, Jôse. Eu não tenho o menor interesse no Estádio de Manaus e a mobilidade urbana ilimitada eu até uso mas, cá entre nós, ela não é exatamente “ilimitada”, né?
_Senhor, mas com este tipo de Copa você também pode transitar de graça de gringo pra gringo e sempre existe a possibilidade de ganhar um greencard.
_Então, Joseane, eu não quero um greencard. Fora que o único gringo que eu tive a oportunidade de pegar nos últimos meses era, na verdade, mineiro. Ele só falou comigo em inglês porque também pensou que eu fosse gringo. E eu também sou mineiro, Joseane. Mineiro de Campanha, Joseane. De Campanha!
_Campanha? Onde fica isso?
_Perto de Varginha.
_Opa, opa! E se eu te oferecer uma superpromoção para você fazer um upgrate da sua Copa e ganhar um Aeroporto em Varginha? Um que funcione de verdade, eu digo.
_Um aeroporto de verdade em Varginha?
_Isso mesmo, além de todos os outros benefícios que já existem na sua Copa, senhor.
_Hmmm.. Talvez eu…
_Um aeroporto em Varginha, hein…
_Eu acho que…
_Com vôos pra São Paulo de hora em hora…
_Eu…
_E com pista de pouso e tudo, acredita?
_Hmm…
_Posso confirmar o upgrade da Copa, senhor?
_Não! Não! Eu pensei melhor… melhor não!
_Mas, senhor…
_NÃO, JOASEANE!
_Ok, senhor. Em que mais posso ajudá-lo?
_Em nada, obriga… PERAÍ! COMO ASSIM EM QUE MAIS? EU LIGUEI PARA CANCELAR A MINHA COPA, NÃO MUDA DE ASSUNTO!
_Senhor, o horário de cancelamento de copas acabou, eu posso estar agendando um contato…
_Pô, mas por que você não disse antes?
_Porque no início desta ligação ainda estávamos dentro do horário, Senhor.
_PORRA, PORQUE VOCÊ NÃO ME AVISOU, JOSEANE?
_Senhor, vejo que o senhor está se exaltando, peço que por favor se acalme.
_COMO ME ACALMAR! VOCÊ TÁ ME FAZENDO DE OTÁRIO, CARA!
_Estou sim, senhor.
_Oi? Como é que é, Joseane?
_Estou te fazendo de otário sim.
_Ah, e você fala isso assim, na minha cara?
_Senhor, faz parte do pacote.
_Ah, faz parte?
_Faz. Não é maravilhoso? Agora imagina na Copa…

TUTUTUTUTUTUTU